05/11/07

Isto aqui Io, Io, é um pouquinho de Brasil, Ai Ai

O Brasil tem dias insuportáveis...pergunto-me se voltasse para Lisboa teria saudades. A minha inefável rolita, (rola que dorme de cabeça levantada,acorda como o morcego), escreveu este texto que é a cara da Bahia... Ela viveu cá dois anos.

Não tenho saudades, não
Não tenho saudades das taxas bancárias. Nem do preço dos frigoríficos; Dos crentes que batem o pé, se benzem e viram as costas a quem usa contas; De ouvir falar de dinheiro; Do stress nas filas. Ou de qualquer condutor; Do som alto; Das pilhas de garrafas de cerveja, em baixo das mesas da praia; Do sabor das batatas; Do ar condicionado nos cinemas; De carioca metido a besta; De acarajé; Dos deslumbrados com a «Óropa»; Do conservadorismo religioso; Da conscientização; Da maneira exagerada como falam com as crianças; Da banalização do verbo amar; Da celulite em asa delta; Do Terceiro Mundo como queixinha ou desculpa; Dos detergentes para lavar a loiça; Da demagogia psicopedagógica; Do Pastel de Belém do Habib’s; De comprar euros; Das muriçocas; Da escova progressiva; Do light, Zero ou «sem qualquer coisa»; Das vitrines das confeitarias sem Bolas de Berlim, Jesuítas ou Ducheses; Da Feira de São Joaquim; Das «Promoções» e das palavras com mais de cinco sílabas; Da culpa do português de há 200 anos; Do hino difícil de entender; Do camarão com dendém; Dos saltos agulha com jeans apertados ou a bermuda com meia; Do hálito a cerveja; Da sensação de estar sendo enganada; E, sobretudo, dos que vendem a alma ao diabo por um cisquinho de nada e dos que nos fazem sentir na obrigação de «ajudar» na compra de uma tv, para tirar um som em doze vezes ou trocar de celular, apenas porque pagamos o INSS e o FGTS ou porque nosso CPF está limpo.

Tenho saudades da cor dos dias. A segunda branca, a terça verde, a quarta vermelha, a quinta azul e a sexta «todo o mundo veste branco». E do sábado e domingo de todas as cores; Dos corpos bonitos, malhados. Sem cerimónia; Da disponibilidade para a farra; De ir para a praia só de toalha. E beber caipirinha, comer queijinho, cajú torradinho. E Arrumadinho, se quiser almoçar; Da minha praia, meu mar, meu rio. Oceano Atlântico. Rio Sapato. Minha Óxum, minha Yemanjá; Do sincretismo, do fantástico, das histórias, e das pessoas que vêem «gente por aí...»; Do meu Palio Adventure. E de minhas casas. E das suas varandas sala-de-jantar, onde os micos roubam fruta e dormem à sombra; Da Estrada do Coco. De um lado, o mar, de outro, a terra vermelha e a mata Atlântica; Do canto dos pássaros à minha janela; De Dona Gildete e seu António, meus avós bahianos, a quem peço a bênção. E da Lúcia, em Lúcia; Daquela humidade que só convida a namorar; Da palavra transar, e de todas as sacanagens que se podem dizer ao ouvido nesse falar; De dormir nua; De deitar na rede; Das Três Marias deitadas e do tamanho da lua; Das tempestades tropicais, onde parece que o céu vai desabar; Do sabor das mangas. Da feijoada, do mocotó, do feijão com arroz, da carne mal passada. Da pimenta e da farinha; Ah, e o Petit Gâteau da Parmalat? E a Paralela, à noite, voltando de Salvador? E que saudades dos barzinhos com música ao vivo. E de dançar, balançar; Das livrarias, dos livros cuidados, das capas bonitas. Da publicidade e dos «eslogans». Da música e dos poetas que entendo; De meu Exu, na porta, bebendo whisky pois não gosta de cachaça; Do réveillon todo branco na água do mar; Do sabor da maconha. Fraquinha, fresca, pura, com delivery por motoqueiro sarado; De ver o mundo de pernas para o ar; Do beija-flor que toda a manhã vem beber água com açúcar; Das oferendas ao mar e ao rio. Das lavagens na praia. Dos banhos no terreiro. E de minhas contas, amarelas e vermelhas; Do preço da carne; E que saudades do pão, de manhã, deixado no portão; Da depilação brasileira; De andar descalça; De não ter frio; Das sex-shops e dos motéis. Três horas, pernoite, diária, café da manhã; Do corte das calcinhas “Corpo e Arte”, de meu DarlingCalifon e dos cheirinhos da Natura; E das cantadas. Em qualquer lugar, em qualquer ocasião. Como sinto falta delas; E do cuidado com as unhas e o cabelo; Da pele bronzeada, macia; De me sentir mais mulher, mais bonita, desejada; Da sensação de uma vida em férias, e do tempo que passa devagar; Do meu cachorro Totó que ficou por lá. E de outras coisas... inconfessáveis. Tudo o resto é igual. Viver aqui, lá, na China ou no Uruguai.


Ó SOFIA, achas que a Pipa se vem?

Ó Maluca Mamona, deixaste o tô marido pra te meteres com o Oliveira?

O Nemo foi promovido...o seu primeiro namorado é Bispo do Porto...
Deixa lá, vais morar para Queluz... eu dou-te a Knorr...

3 comentários:

tresdetrinta disse...

Acho que não... pelas trombas com que a «piquena» anda sempre. Ao contrário da mãe, que deve ser uma mamona, como tu dirias. Olha, vivi aí 3 anos, três. Tá? Num post anterior tinha dito que tinha saudades tuas. Bjs.
http://3de30.blogspot.com/2007/10/mon-petit-dictionnaire-c.html

Anónimo disse...

penso ser deselegante falar mal do país que os recepciona; se estão insatisfeitos, que se vá e deixem o país para os rasileiros ... da saudade e não saudade mostra a vertente neocolonizadora que tem do país. Gostam daqui pela preguiça, pensando que os euros subsidiados pagam bem por uma vida no país. Lêdo engano ... vivem com os pobres, bares vulgares, boites indígnas e companhias estranhas.

Pedro Carita disse...

Paulo e Caco, tb tenho saudades vossas... apareçam por cá... as minhas novidades fotograficas encontram em www.photoblog.com/oceanboy

abreijos