29/05/08

A vida continua

Brasil
As coisas são difíceis. Nestes dias apetece-me viajar. Entro na net e procuro destinos. O problema é que não posso ir sem mim. Se pudesse deixar-me aqui e ir curtir... tudo ficaria mais fácil. Nem o desgaste do Elton Carlos e do Fabão me arrancam o cérebro, por isso mesmo vou ficando... eu e os meu velhinhos... todos curvadinhos, que nunca me desampararam. Se ao menos pudesse ficar desacordado um tempo longo...

Existe uma história zen sobre um homem e um cavalo. O cavalo está galopando rapidamente, e parece que o homem que cavalga se dirige a algum lugar importante. Outro homem, em pé ao lado da estrada, grita: "Aonde você está indo?" e o homem a cavalo responde: "Não sei. Pergunte ao cavalo!" Esta é a nossa história. Estamos todos sobre um cavalo, não sabemos aonde vamos e não conseguimos parar. O cavalo é a força de nossos hábitos que nos puxa, e somos impotentes diante dela. Estamos sempre correndo, e isso já se tornou um hábito. Estamos acostumados a lutar o tempo todo, até mesmo durante o sono. Estamos em guerra com nós mesmos, e é fácil declarar guerra aos outros também.
Precisamos aprender a arte de fazer cessar — parar nosso pensamento, a força de nossos hábitos, nossa desatenção, bem como as emoções intensas que nos regem. Quando uma emoção nos assola, ela se assemelha a uma tempestade, que leva consigo a nossa paz. Nós ligamos a TV e depois a desligamos, pegamos um livro e depois o deixamos de lado. O que podemos fazer para interromper este estado de agitação? Como podemos fazer cessar o medo, o desespero, a raiva e os desejos? É simples. Podemos fazer isso através da prática da respiração consciente, do caminhar consciente, do sorriso consciente e da contemplação profunda — para sermos capazes de compreender. Quando prestamos atenção e entramos em contato com o momento presente, os frutos que colhemos são a compreensão, a aceitação, o amor e o desejo de aliviar o sofrimento e fazer brotar a alegria.
Mas a força do hábito costuma ser mais forte do que nossa vontade. Dizemos e fazemos coisas que não queremos e depois nos arrependemos. Causamos sofrimento a nós mesmos e aos outros, e de forma geral produzimos grande quantidade de destruição. Podemos ter a firme intenção de nunca mais fazer isso, mas sempre acabamos fazendo de novo. Por quê? Porque a força do hábito (vashana) acaba vencendo e nos levando de roldão.
Precisamos da energia da atenção plena para perceber quando o hábito nos arrasta, e fazer cessar esse comportamento destrutivo. Com atenção plena, temos a capacidade de reconhecer a força do hábito a cada vez que ela se manifesta. "Alô força do hábito, sei que você está aí!" Nessa altura, se conseguirmos simplesmente sorrir, o hábito perderá grande parte de sua força. A atenção plena é a energia que nos permite reconhecer a força do hábito e impedi-la de nos dominar.
Por outro lado, o esquecimento ou negligência é o oposto.
Tomamos uma xícara de chá sem sequer perceber o que estamos fazendo. Sentamo-nos com a pessoa que amamos mas não percebemos que a pessoa está ali. Andamos sem realmente estar andando. Estamos sempre em outro lugar, pensando no passado ou no futuro. O cavalo dos nossos hábitos nos conduz, e somos prisioneiros dele. Precisamos deter este cavalo e resgatar nossa liberdade. Precisamos irradiar a luz da atenção plena em tudo o que fizermos, para que a escuridão do esquecimento desapareça. A primeira função da meditação — shamatha — é fazer parar.
A segunda função da shamatha é acalmar. Quando sofremos uma emoção forte, sabemos que talvez seja perigoso agir sob sua influência, mas não temos força nem clareza suficientes para nos abstermos. Precisamos aprender a arte de respirar, de inspirar e expirar, parando tudo o que estamos fazendo e acalmando nossas emoções. Precisamos aprender a nos tornar mais estáveis e firmes, como se fôssemos um carvalho, e não nos deixar arrastar pela tempestade de um lado para outro. O Buddha ensinou uma variedade de técnicas para nos ajudar a acalmar corpo e mente, e considerar a situação presente em toda a sua profundidade. Essas técnicas podem ser resumidas em cinco estágios:
Reconhecimento: se estamos zangados, dizemos "reconheço que a raiva está dentro de mim".
Aceitação: quando estamos zangados, não negamos a raiva. Aceitamos aquilo que está presente em Acolher: abraçamos a raiva como faz uma mãe com o filho que chora. Nossa atenção plena acolhe a emoção, e só isso já é capaz de acalmar a raiva e a nós mesmos.
Olhar em profundidade: quando nos acalmamos o suficiente, conseguimos observar profundamente para entender o que provocou a raiva, ou seja, o que está fazendo o bebê chorar.
Insight: o fruto do olhar profundo é a compreensão das causas e condições, tanto primárias quanto secundárias, que provocaram a raiva e fizeram nosso bebê chorar. Talvez ele esteja com fome. Talvez o alfinete da fralda o esteja machucando. Talvez nossa raiva tenha surgido quando um amigo nos falou em um tom ofensivo, mas de repente nos lembramos de que essa pessoa não está bem hoje porque seu pai está muito doente. Continuamos a refletir dessa forma até compreendermos a causa de nosso atual sofrimento. A compreensão nos dirá o que fazer ou não fazer para mudar a situação.
Depois de nos acalmarmos, a terceira função da shamatha é o repouso. Suponha que alguém nas margens de um rio joga uma pedra para o ar e a pedra cai no rio. A pedra afunda lentamente e chega ao fundo do rio sem esforço algum. Depois que a pedra chega ao fundo do rio, ela descansa, deixando que a água passe por ela. Quando sentamos para meditar podemos nos permitir repousar da mesma forma que essa pedra. Podemos nos deixar afundar naturalmente, na posição sentada — repousando, sem fazer esforço. Temos que aprender a arte de repousar, permitindo que nosso corpo e nossa mente descansem. Se tivermos feridas em nosso corpo e em nossa mente precisamos repousar para que elas possam por si só se curar.
O ato de se acalmar produz o repouso, e o descanso é um pré-requisito para a cura. Quando os animais selvagens estão feridos, eles procuram um lugar escondido para deitar, e descansam completamente por muitos dias. Não pensam em comida nem em mais nada. Apenas descansam, e com isso obtêm a cura de que precisam. Quando nós seres humanos ficamos doentes, nos preocupamos o tempo todo. Procuramos médicos e remédios, mas não paramos. Mesmo quando vamos para a praia ou para as montanhas com a intenção de descansar, não chegamos realmente a repousar, e voltamos mais cansados do que partimos. Temos que aprender a repousar. A posição deitada não é a única posição de descanso que existe. Podemos descansar muito bem durante meditações sentados ou caminhando. A meditação não deve ser um trabalho árduo. Simplesmente permita que seu corpo e sua mente descansem, como o animal no mato. Não lute. Não há necessidade de fazer nada nem realizar nada. Eu estou escrevendo um livro, mas não estou lutando. Estou descansando. Por favor, leiam este livro de uma forma alegre e relaxante. O Buddha disse: "Meu Dharma é a prática do não-fazer."1 Pratiquem de uma forma que não seja cansativa, mas que seja capaz de proporcionar descanso ao corpo, às emoções e à consciência. Nosso corpo e mente sabem curar a si mesmos se lhes dermos uma oportunidade para isso.
Parar, acalmar-se e descansar são pré-requisitos para a cura. Se não conseguirmos parar, nosso ritmo de destruição simplesmente vai prosseguir. O mundo precisa imensamente de cura. Os indivíduos, comunidades e países estão cada vez mais necessitados de cura.

(Thich Nhat Hanh. The heart of the Buddha's teaching - transforming suffering into peace, joy, and liberation: the four noble truths, the noble eightfold path and other basic Buddhist teachings. Broadway Books: New York, 1999.)


A minha Sofia fez anus, credo, anos. Aqui vai o presente para matar saudades das Terras de Vera Cruz.


O fim de semana està à porta... tudo vai melhorar.

Não há vida sem morte


Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

22/05/08

O Direto, é para servir os Homens e não o contrário

O Supremo Tribunal do Estado da Califórina, onde aquele rapaz que fazia filmes cheios de conteúdo é governador, fez jurisprudência sobre o casamento homosexual. É, portanto, inconstitucional vedar o casamento a pessoas do mesmo sexo.

«In contrast to earlier times, our state now recognizes that an individual’s capacity to establish a loving and long-term committed relationship with another person and responsibly to care for and raise children does not depend upon the individual’s sexual orientation, and, more generally, that an individual’s sexual orientation — like a person’s race or gender — does not constitute a legitimate basis upon which to deny or withhold legal rights. We therefore conclude that in view of the substance and significance of the fundamental constitutional right to form a family relationship, the California Constitution properly must be interpreted to guarantee this basic civil right to all Californians, whether gay or heterosexual, and to same-sex couples as well as to opposite-sex couples.»

20/05/08

Preciso de coisas bonitas




Casa do Bento
– Esta lá? Mãezinha?
– Não ligaste domingo... – Comentou ela.
– Como vão as tias? – Perguntou ele.
– Estão todas bem. Muito chatas. É da idade. E vê lá tu, que apanharam o primeiro-ministro a fumar na casa de banho de um avião. Que vergonha! É um gaiato. Não se sabem pôr no lugar, depois dá isto. Manda quem pode e obedece quem deve. Ele fuma onde quiser e ponto final. Os homens sempre fumaram. Ora, onde é que já se viu a dar satisfações dos seus vícios. Agora, na casa de banho!
– Não têm nada mais sério para discutir? – Perguntou ele incrédulo.
– Sim. Falta saber se o cigarro era droga. Sei lá.

15/05/08

O dia duro mas bom


A Bofetada
Eu a Zitinha fomos ao teatro... ver a Bofetada. Rimos muito e passamos bons momentos juntos. Ficámos a saber que Fanta sem gás é um Tang de segunda classe. O Teco não veio porque esta empolgado num churrasco com a criadagem, com quem a snob da Zitinha não se quer misturar.

Avózita
Está de partida de novo. Sei que não gosta de voltar porque o lugar dela é aqui. Encontrou a sua raíz. Também eu encontrarei a minha velha/nova raiz... onde menos esperar.

Engula a Santa...
Rema mê filhe que estás quase a ver o tê pai n'ámereca.
(Mãe açoriana com um filho num bote ao largo das Flores)

Casa do Bento
- Está lá? Mãezinha?
- Sim filho, quem querias que fosse? - respondeu ela de imediato.
- Estou a ligar para desejar feliz dia das mães.
- Obrigado meu querido.
- Aqui no Brasil, o dia das mães é só para a semana...
- Pois, realmente, eles são um bocadinho atrasados, coitadinhos.


Um dia, em Julho fui a uma roça a uma festa. Chegou um personagem famoso e deu sua salva a pedido da mais velha. Todos vieram de imediato dizer que aquela não era a saudação do caboclo famoso. Ele não falaria em sambar e dançar... Ao percorrer a net hoje dei com esta saudação gravada do cavalo original do referido caboclo... há um bom par de anos:

Pandeiro não quer que eu sambe aqui
Viola não quer que eu vá embora
Olô pandeiro, Olô viola
Olô pandeiro, Olô viola
Pandeiro quando toca faz Pedra-Preta chegar
Viola quando toca faz Pedra-Preta sambar
O pandeiro diz: Pedra-Preta não samba aqui, não
A viola diz: Pedra-Preta não sai daqui, não
Pedra-Preta diz: Pandeiro tem que pandeirar
Pedra-Preta diz: Viola tem que violar
O galo no terreiro fora de hora cantou
Pandeiro foi-se embora e Pedra-Preta gritou:
Olô pandeiro, Olô viola
Olô pandeiro, Olô viola

Down Town na zona alta

São Salvador da Bahia é a única cidade d0 mundo que tem uma dowtown na uptown. Estão a construir uma zona financeira e de escritórios na zona alta da cidade. São escritórios, lojas, espaços de lazer e claro uma extenção do novo shopping,onde temos o nosso restaurante. A curisosidade é o facto de chamarem a estes edificios, downtown.
Para além destes baptismos, nesta mesma zona, existe a Manhatan Square e o Salvador Prime, palácio dos emergentes, porque como todos os projectos imobiliários em cursopor aqui, trazem um" novo conceito de viver".
Ao lado do Salvador Prime existe uma grande favela, não das piores, porque já foi sendo melhorada pelo suor dos seus habitantes, chamada Pernambuez... o povo já está a chamá-la por Salvador Second.

13/05/08

13 de Maio

Regina Sacratissimi Rosarii Fatimae, ora pro nobis.


Feira de São Joaquim
Fui lá hoje de manhã cedo porque foi preciso. Falei com a baiana que faz os copos de sumo, comprei as folhas e ouvi o moleque que carrega as compras dizer que ela só gosta de bode porque quer ter em casa carne do sertão. Está dito: «minha mãe não me fez branco para que eu seja franco.»

A Gula Santa é um pesadelo que não pára, a mão-de-obra, apesar de maior de idade, é infantil e tem de ser tratada como tal. É preciso estar constantemente a dar ordens e a ralhar. Estou a cansar-me do movimento internacional... pobrete mas alegrete...

A Zitinha está no auge da adolescência aos 13. Tal como eu é precoce. Acha-se a melhor do mundo, em tudo, e di-lo a toda a gente, incluindo às professoras. Umas acham graça, outras nem por isso e na hora do queijo, comomanda a tradição, são elas que têm a faca.

O Teco vive num mundo onde os heróis são os caseiros. E eu que me achava chic. Só pensa em churrasquinhos e está constantemente de alpercatas... que inferno.

11/05/08

Dia da Mãe

Nova York never sleeps, 2008-2009.
La Sonambula de Belini, com Déssay e Florez de novo.

Hoje é dia das mães aqui no Brasil
Ser MATER é viver fazendo nascer todos os dias.
Mãezinha, quero colo.

07/05/08

Dignidade

A dignidade é a última coisa que podemos perder...
se nos baixamos demais, vêem-se as cuecas,
como diz o provérbio alentejano...

05/05/08

03/05/08

Sassaricando

A Res:.Loj:. Acácia fez 100 anos. Por lá passaram alguns dos nomes mais marcantes da vida intelectual e política do sécuclo passado. A história também se faz na resistência e na persistência.
T:.A:.F:.



DOMENICA IN PENTECOSTIS
Toma posse o Novo Grão Prior do Priorado
(q.D.g)
Raimundus,+C.O.T



Ontem teria assitido naquela que é a minha cidade favorita
a esta ópera aguardada com tanta expectativa.



A ferver em SSA
Só que eu não sou um ícone...

A Ferver começou no dia em que BUfford decidiu fazer o perfil de Mario Batali, prontificando-se a passar catorze meses na cozinha do Babbo, o restaurante de cozinha italiana situado em Waverly Place, no West Village.
Porquê o interesse em Batali?
Porque Batali, Pó para os íntimos, proprietário do Babbo e um chefs mais reputados de Nova Iorque, é uma lenda viva da cozinha. Com os seus «calções, os socos, os óculos de sol circulares, o cabelo ruivo apanhado num rabo-de-cavalo», tornou-se um ícone da cidade, rapidamente identificado tanto pelos executivos de Wall Street como pelos fãs dos New York Giants.
Sim, o programa de televisão, Mario Molto, ajuda. Buford e Batali são amigos, mas essa relação de cumplicidade não facilitou a vida do escritor.Na cozinha do Babbo, igual entre iguais (o estatuto de intelectual não comove ninguém), com a desvantagem do principiante mal preparado, Buford teve de aprender tudo a partir do zero. Logo no primeiro dia, às 7 da manhã, Elisa Sarno, chefe da “preparação” — as cozinhas destes restaurantes são como linhas de montagem —, perguntou rispidamente: «Onde puseste as tuas facas?» Ele não queria acreditar: «É suposto eu ter facas?» Era. Elisa não admitia amadores.
Nos Estados Unidos há 229 escolas de cozinha credenciadas, que formam por ano 25 mil profissionais. As mais caras cobram 20 mil dólares de propina por ano (o curso dura quatro) e, no último, é preciso fazer um estágio não remunerado num restaurante. A tese é obrigatória para obtenção do diploma. Buford foi aceite na cozinha do Babbo a título excepcional. No primeiro dia, Elisa pô-lo a aprender a desmanchar animais.O livro faz a síntese entre o calvário de Buford (contrariamente à tradução portuguesa, que tem como subtítulo Aventuras e desventuras de um cozinheiro amador, o original refere expressamente as aventuras de um “escravo de cozinha”...) e a biografia de Batali, que nasceu em 1960 num subúrbio de Seattle, filho de mãe canadiana e pai italiano, funcionário da Boeing. Aos 15 anos, Batali foi com a família viver para Espanha, e mergulhou fundo na movida de Madrid. De regresso aos Estados Unidos, para frequentar a universidade, depressa foi parar, embora não pelas melhores razões, à cozinha de uma pizaria de New Jersey, o Stuff Yer Face. O mais engraçado é que a mãe lhe recomendara um curso superior de culinária (mas ele preferiu especializar-se em gestão de empresas e em teatro espanhol), sugestão que Batali recusou, por abichanada. A partir da pizaria nunca mais parou. Fez um tirocínio em Londres, num obscuro pub de King’s Road, o Six Bells, entrando como “escravo” de Marco Pierre White, hoje um dos chefs mais influentes do Reino Unido. À época eram ambos jovens, embora White fosse já um profissional reconhecido, «basicamente analfabeto mas, por ser tão intuitivo e físico [...] conseguia fazer com a comida coisas que jamais alguém fizera.» Os dois eram muito diferentes: Batali tinha umas grandes barrigas das pernas, enquanto White era perfeito como uma escultura, com ombros largos e cintura estreita. Mas foi com White que Batali aprendeu «as virtudes da apresentação, da velocidade, da perseverança e de uma cozinha forte e musculada», aprendendo ao mesmo tempo a odiar o paradigma da cozinha francesa. Ao pub de Chelsea seguiu-se um tour pelos grandes restaurantes europeus. O resto é história. A sua passagem pelo Clift e pelo Stars, ambos de São Francisco, coincidiu com a revolução californiana, esse «momento pós-moderno na alimentação», quando um pedaço de comida, «uma ponta de espargo [não era] um mero vegetal verde mas um problema de grande premência — um manuscrito de Milton, ou de Susan Sontag.» Nesses anos em que o jantar se tinha tornado «uma questão intelectual», Batali exorbitou, provando ser possível fazer uma grande refeição a partir de um naco de foie-gras e de uma «redução doce e avinagrada de laranjada Nehi e rebuçados Starbust de fruta». Assim se tornou, aos 27 anos, o chef mais bem pago da América.É praticamente impossível descrever as mil peripécias da aprendizagem de Buford (a qual incluiu uma viagem à Toscânia para aprender os segredos da pasta), os seus momentos de tensão, humor e júbilo, os mexericos, as duras regras que teve de vencer para passar de escritor a cozinheiro. E tudo isto apesar de não considerar o Babbo o melhor restaurante italiano de Nova Iorque... lugar que reserva ao Beppe, no n.º 45 East da 22.ª rua (mas esta informação não consta do livro). Absolutamente visceral.

02/05/08

Epa Baba

Meu pai Oxalá é o rei venha me valer.
Hoje não se decide, descansa-se e espera-se.

01/05/08

Um de Maio

30/04/08

Revolução

Tenho andado por estes dias a pensar que sentido faz hoje o 25 de Abril, aliado a um momento muito especial da minha vida em que a forma como estou habituado a viver se alterou de forma radical por força da Bahia-de-Todos-os-Santos. Não há 25 de Abril ou a Revolução sem que se corte a cabeça ao Império do Deus Dinheiro, em lugar de ir a correr negociar com ele no dia seguinte à Insurreição, e que parta a espinha ao Grande Poder e à Grande Religião, em lugar de ir a correr ocupar os respectivos trono e altar. Não há Revolução a sério, enquanto não se não for capaz de fazer isto. Esta constatação soa a loucura e a utopia. Alegra-me o íntimo da consciência: só quem escolher ser pobre e permanecer pobre a vida inteira e entre desarmado neste combate, nesta Insurreição-Revolução, é que poderá levar por diante um Abril assim, uma Revolução assim. Esta é a via de se fazer revolução, a interior e a que mudará os outros.
A vida não está fácil.

Está noite na floresta

Hoje preferia ter um cinto de segurança do que o balanço do mar.


ET UNAM SANCTA CATHOLICA ET APOSTOLICAM ECCLESIA
dedicado em especial a MJC

O arcebispo de Saragoça abriu as portas do templo Pilar a directores do banco Santander, no passado dia 18, para que estes pudessem beijar a "Virgem" do local. Esta "honra" seria já caso para notícia, uma vez que a mesma costuma estar reservada ao clero, família real e crianças que ainda não comungaram. Mas pronto, um banqueiro é um banqueiro, também pode entrar no clube.Mas o mais divertido é que além do templo ter sido decorado de vermelho, a cor do banco, Emilio Botín, presidente da instituição na foto acima, ofereceu um novo manto à estatueta venerada, com um belíssimo logótipo bordado. Tudo abençoado pelo arcebispado da terra, claro. Nunca ficou tão claro o que move a igreja. Da minha parte só aplausos, o acto revela uma transparência e frontalidade raras quer na banca, quer na igreja. E só posso esperar que o gesto ganhe adeptos também por cá. Parece que já estou a ver a placa, "Santuário de Fátima - Millenium BCP". Ou melhor ainda, crucifixos com o centauro do Banif!

29/04/08

28/04/08

Inquisito

Amanhã, dia 22 de Abril, será inaugurado no Largo de São Domingos, o Memorial às Vítimas da Intolerância em Lisboa. Por iniciativa de Sá Fernandes apoiada pelo PS e pelo movimento “Cidadãos por Lisboa”. A 19, 20 e 21 de Abril de 1506 foram barbaramente assassinados e queimados cerca de dois mil judeus em Lisboa. Os acontecimentos tiveram início junto ao Convento de São Domingos e culminaram em duas enormes fogueiras, no Rossio e na Ribeira.

É muito importante que se diga que a História da Inquisição está muito longe de estar terminada. Há milhares de documentos, rol, por ler em enormes caixas e maços na Torre do Tombo e terras tão longínquas como na Bahia.
Neste momento houve ainda o IIIº congresso de história da inquisição, por isso a produção científica ainda é pouca para ajuizar as implicações totais deste processo.
O trabalho que me parece mais interessante, ainda hoje, para aqueles que não querem repetir o que diz a voz mediática e muitas vezes pouco fundamentada, é a «História da Inquisição», de António José Saraiva.

Se racionalizares, apanhas o primeiro avião para Lisboa

Houve festa de Gomgombira no Terreiro de São Jorge seguido de presente para Dandalunda. Foi Lindo. Preferi o Domingo porque é sempre mais íntimo. Não basta amar um Terreiro de forma exarcebada. Tem de se procurar as respostas e essas só os búzios. Estela de Oxossi tinha razão.


Hoje estou assim por isso fiquem longe. O Átila também está, por isso comeu o cão do vizinho... enfim os problemas aqui no Brasil são aos montes e diários... mas é assim mesmo «e tudo vai dar certo...» (uma das minhas frases favoritas).

26/04/08

O povo saiu à rua

Este post é dedicado aqueles que me ensinaram a compreender a tragédia da ditadura portuguesa e amar a liberdade e a democracia: João Cravinho, José Luis Judas, Maria José Campos, José Lagarto Alves, Senhor Cavaco, Frei Eugénio Boléo,Tio Henrique Gaspar.




















Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos.
Foi o tempo que doía com seus riscos e seus danos.
Foi a noite e foi o dia na esperança de um só dia.
Manuel Alegre


Hoje parece ridícula, mas matem lá saudades desta querida.
http://br.youtube.com/watch?v=9v15fr7Wfek


Diário do 25 de Abril


Otelo Saraiva de Carvalho por volta das 22 horas do dia 24/4/1974 fardado com blusão de cabedal chega ao Regimento de Engenharia Nº1, na Pontinha. É ali que o major acompanhado de outros oficiais: Os tenentes-coronéis Garcia dos Santos e Lopes Pires, o comandante Victor Crespo, os majores Sanches Osório e José Maria Azevedo, o capitão Luís de Macedo… Ali instalam o posto de comando num pequeno anexo com as janelas tapadas por alguns cobertores, sobre a mesa uns papéis manuscritos e um mapa de estradas do Automóvel Clube de Portugal edição de 1973 que fazia de carta operacional com os esboços das movimentações, sendo a base do “plano geral das operações” que se dividia em duas zonas; Zona Norte que começava no eixo a sul do Porto e Lamego para norte. Zona Sul desse eixo para sul, dividido em quatro sectores; Sector Norte, até a sul de Coimbra, Sector Centro até norte de Santarém, Sector Sul daí para sul, Sector Lisboa que também incluía Santarém. Dali do Posto de Comando com o nome de código «Óscar» dão o conhecimento da situação e as instruções às unidades militares de todo o país envolvidas nas operações. O primeiro sinal como combinado seria dado pelo então posto “Emissores Associados de Lisboa” às 22:55. João Paulo Dinis era lá locutor e fizera a tropa em Bissau sob as ordens de Otelo, daí a escolha de Otelo. E cabe a Dinis às 22:55 dar voz e escolher a canção « E Depois do Adeus », de Paulo de Carvalho, canção vencedora desse ano do Festival da Canção RTP e que iria a alguns dias representar Portugal no Festival da Eurovisão. A segunda senha é dada na “Rádio Renascença”. Otelo fazia ponto de honra que fosse uma canção do Zeca Afonso e estava indeciso entre «Venham Mais Cinco» e «Trás Outro Amigo Também» eram as suas preferidas mas logo os seus camaradas fizeram notar que seriam canções muito obvias e que iriam suscitar desconfiança. Foi assim que o jornalista Carlos Albino sugeriu «Grândola Vila Morena» e é esta que acaba por ir para o ar no programa «Limite» de Paulo Coelho e Leite de Vasconcelos que antes de pôr o disco recita a primeira quadra de «Grândola Vila Morena». São 0:20 e grande parte das forças envolvidas põe-se em movimento. O Quartel-General da Região Militar de Lisboa é o centro nevrálgico das “Forças do Regime”. O edifício é tomado pelo Batalhão de Caçadores 5 com o código «Canadá». A mesma unidade também se encarrega de proteger a residência do general António de Spínola, o general Francisco Costa Gomes não foi alvo de protecção porque não dormiu em casa. Importante é também o aeroporto da Portela, operação com o código «Nova Iorque» que fica encarregue à Escola Prática de Infantaria (EPI) de Mafra que às portas de Lisboa a coluna militar perde-se nas ruas e becos escuros de Camarate. Junto ao aeroporto o capitão Costa Martins esperava a coluna da EPI e desesperava e decide neutralizar sozinho de pistola em punho a guarda do aeroporto e entrou mesmo na torre de controle fazendo «bluff» durante mais duma hora dizendo que o aeroporto estava cercado e para se interditar o espaço aéreo português imediatamente. A EPI chegada toma de imediato conta do aeroporto e ainda neutraliza o Regimento de Artilharia Ligeira 1 em Lisboa junto ao aeroporto. A Escola Prática de Transmissões fazia as escutas telefónicas militares das forças do regime que depois transmitia ao Posto de Comando. O Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz vem a Lisboa com a missão de controlar a Ponte Sobre o Tejo, tomando posições do lado sul do Tejo (Pragal). Enquanto nas colinas adjacentes à ponte de ambos os lados a Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas toma posições apontando baterias junto ao Cristo Rei, para o Terreiro do Paço e Monsanto. A mesma unidade depois vai lá baixo à Trafaria libertar os militares que tentaram a 16 de Março o “golpe das Caldas da Rainha” e que se encontravam presos na Casa de Reclusão da Trafaria. Os órgãos de comunicação social também eram de crucial importância controla-los. Para isso coube à RTP (única emissora televisiva da época) ser tomada pela então, Escola Prática de Administração Militar, (operação; código Mónaco) já que se situava na mesma rua, (Alameda das Linhas de Torres em Lisboa). A antiga Emissora Nacional, actual RDP na rua do Quelhas foi tomada com meios limitados pelos capitães Oliveira Pimentel e Frederico de Morais mais 40 praças de especialidades diversas do Campo de Tiro da Serra da Carregueira. Na rua Sampaio Pina à porta do Rádio Clube Português estão estacionados homens do BC5 dali perto (Campolide) chefiados pelo capitão Santos Coelho e pelo Major Costa Neves da Força Aérea o qual no momento da tomada do RCP é questionado pelo porteiro; se não podiam aparecer após as 9 horas da manhã, que sempre já lá estaria mais gente para os receber!!! Costa Neves e seus camaradas forçam a entrada e é esse o posto escolhido para emissor do MFA. Como previram que as forças do regime pudessem cortar as ligações às antenas do RCP do Porto Alto, tal como vieram a tentar, então a guarda das antenas ficaram a cargo da Escola Prática de Engenharia, de Tancos que também controlou a ponte de Vila Franca de Xira e a casa da moeda em Lisboa. Então através do RCP o MFA apresenta-se ao país pela 1ª vez às 4:26 (estava previsto ser às 4 horas mas o engano de percurso da EPI em Camarate atrasou o comunicado) a voz é do jornalista Joaquim Furtado: «Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas...». A programação é alterada e passa o hino nacional, marchas militares e canções de protesto e de contestação. Sucedem-se os comunicados escritos por Victor Alves e Lopes Pires no quartel da Pontinha, que eram lidos aos microfones do RCP. Mediante esta situação os ouvintes ficam a par do desenrolar dos acontecimentos. Mas a missão principal cabe ao capitão Salgueiro Maia e seus homens da Escola Prática de Cavalaria, vindos de Santarém ficam-lhes encarregues várias acções desde de “despiste” ou seja; chamar a atenção das forças fiéis ao regime através dum itinerário ostentatório no sentido de dispersar as capacidades inimigas. E ainda de controlar o Banco de Portugal, a Rádio Marconi e o Terreiro do Paço. Ali, o ministro do Exército, general Andrade e Silva perante a situação manda abrir à picareta um buraco na parede do gabinete por onde foge mais os ministros da Marinha, da Defesa e do Interior acompanhados de militares de altas patentes. Antes do golpe a Marinha e a Força Aérea haviam sido contactadas para aderirem mas garantiram a neutralidade. Mas o capitão-de-fragata Seixas Louçã que comandava a fragata «Almirante Gago Coutinho» integrada na NATO e com grande poder de fogo, resolve, ameaçar disparar sobre o Terreiro do Paço. Ao que é posta ao corrente das baterias de artilharia, já prontas a disparar, posicionadas nas colinas junto ao Cristo Rei. A tripulação ao saber rebela-se e ao fim da manhã a fragata retira-se e vai fundear-se no Alfeite. Momento importante, quando a coluna EPC é interceptada na Avenida Ribeira das Naus por tropas fieis ao regime comandadas pelos brigadeiro Junqueira dos Reis e o tenente-coronel Ferrand d’Almeida, com tanques Patton M47. É o próprio Salgueiro Maia que vai tentar dialogar, saindo a pé e de lenço branco na mão hasteado e uma granada escondida na outra, ao que o brigadeiro dá ordens para disparar sobre o capitão mas que ninguém obedece! E depois mesmo alguns tanques de Cavalaria 7 passam-se para o lado de Salgueiro Maia. Outro momento muito importante dá-se às 5 horas quando o Major Silva Pais director-geral da PIDE/DGS dá conhecimento ao presidente do Conselho (função que equivale actualmente à de primeiro-ministro), Marcello Caetano dos acontecimentos que este ainda desconhecia. Referindo que a situação era grave e dando instruções para se refugiar o mais depressa possível no Comando-Geral da GNR no Largo do Carmo porque era um dos sítios que não se encontrava sitiado e que passava mais despercebido. Mas que veio a revelar-se uma grande armadilha! Primeiro porque soube-se da sua entrada no Quartel do Carmo às 6 horas, ao que o major Otelo deu ordens para Salgueiro Maia se dirigir para o Largo do Carmo e sitiar completamente o quartel para que não houvesse fugas pelas traseiras. Na ida da coluna de Salgueiro Maia para o Largo do Carmo, uma companhia do RI 1 comandada pelo capitão Fernandes tenta bloquear a passagem mas após curto diálogo, passam-se para o lado dos revoltosos. Embora em telefonemas mais tarde tentassem convencer Otelo que Caetano não se encontrava lá mas Otelo sabia que era para as forças do regime ganharem tempo. E segundo porque quando as individualidades mais importantes ligadas ao regime foram socorridas pelo ar, por um helicópetero como no caso do Regimento de Lanceiros 2, esse mesmo helicópetero tentou ajudar a fuga de Marcello Caetano, só que não havia sítio para o helicópetero aterrar e por isso Marcello Caetano receoso permaneceu encurralado no Quartel do Carmo com blindados apontados e ouvindo uma multidão crescente que tinha acordado dum sono profundo ou que tinha aprendido ou descoberto nesse dia que existiam outras coisas como democracia e liberdade… E gritavam: Por vingança e palavras de ordem contra a ditadura e guerra colonial e outras coisas. Salgueiro Maia depois terá mesmo pedido calma ao povo de megafone em punho. Mesmo que o regime não caísse as coisas já não seriam mais como antes, o povo nesse dia tinha ouvido coisas novas e ficou a saber em que tipo de regime e que tipo de politicos governavam o país por isso aderiram de imediato ao Movimento das Forças Armadas! O tempo passava a GNR não reagia numa tentativa de ganhar tempo. Maia dá um ultimato à GNR mas nada! No Posto de Comando desesperavam e Otelo envia um bilhete escrito a Maia: «Com metralhadoras rebenta com as fechaduras do portão, que é para saberem que é a sério!» Ás 15:10 são dados 10 minutos. (Temia-se que um helicópetero afecto às Forças do Regime podesse largar uma bomba sobre as forças revoltosas no Largo do Carmo). Após o prazo esgotado, às 15:25 as metralhadoras duma viatura chaimite disparam contra a frontaria do quartel. Como não houvera reacção da parte do quartel, passado algum tempo um blindado toma posição de canhão apontado e é nesse momento que surgem dois civis: Pedro Feytor Pinto e Nuno Távora, quadros da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, medianeiros entre Spínola e Caetano, este último melindrado com a situação dizia: «Não quero que o poder cai na rua». Feytor Pinto telefona a Otelo que em nome do MFA, mandata o general Spínola para receber a rendição de Caetano. Às 18 horas, chega Spínola de automóvel com farda Nº 1. Caetano submete-se e entrega a Spínola o poder e pede protecção. Spínola transmite a Caetano a intenção do MFA de o enviar para o Funchal. (Iria partir para o Funchal no dia seguinte pelas 7horas, a ele juntaram-lhe também entre outros o Presidente da Republica Almirante Américo Tomás que durante a longa noite da revolução não deu sinal de vida, como se não fosse nada com ele, passou o dia na sua casa no Restelo, saindo sobre escolta para o aeroporto). E assim às 19:30 sai do quartel o chaimite «Bula», no interior vão Marcello Caetano e António Spínola em direcção à Pontinha, por entre uma multidão eufórica que celebra a “Liberdade” com cravos vermelhos. Às 19:50 é emitido o comunicado: «O Posto de Comando do MFA informa que se concretizou a queda do Governo, tendo Sua Excelência o Professor Marcello Caetano apresentado a sua rendição incondicional a sua Excelência o General António de Spínola». Logo após as 20 horas é lida no RCP a «Proclamação do Movimento das Forças Armadas». E à 1:30 já do dia 26/4/74 aparecem na televisão as novas caras do poder: A Junta de Salvação Nacional, como presidente, António de Spínola, em que lê uma proclamação ao país: …Um novo regime… A democracia, a paz.


Um 25 com 7
Era criança no tempo da ditadura. Lembro-me bem do Alentejo feudal e do sofrimento das pessoas e sobretudo estranhava que alguns comentários tivessem que ser feitos em voz baixa, olhando por cima do ombro.
Lembro-me da dona Laurinha, vizinha de minha mãe, amante do Major Silva Pais, chefe da polícia política e de como todos a temiam e se esforçavam por lhe agradar.
Lembro-me do senhor Cavaco, constantemente levado pela Pide, deixando em casa os filhos sozinhos durante meses.
Lembro-me da confusão que isso me fazia, porque todos na rua afirmavam que não era ladrão, e que na minha inocência só ladrões iam presos.
Lembro-me de uns versos que cantava irritar a minha mãe: «Gertrudes no beliche e o resto que se lixe.» Ela replicava que me calasse porque o pai podia ir preso.
Lembro-me de saber na mercearia do sr. Manuel que o Paulo de Carvalho ia ganhar o Festival da Canção ainda antes de a ter cantado.
Lembro-me do Tio Teodoro com os demais alentejanos virem a Lisboa á revista à portuguesa e jantarem no Ribadouro,comentando ou trauteando as piadas politicas.
Lembro-me do Cardeal Cerejeira se ter recusado a receber a prima Inglantina que o cumulava de dinheiro,e que temendo a tuberculose do filho lhe pediu de joelhos, á porta do paço que o mudassem para a Cadeia de Caxias.
Lembro-me da minha mãe chorar quando no dia 26 de Abril os portões de Caxias se abriram e todos os presos políticos saiaram,incluindo o senhor Cavaco abraçando a multidão, e a minha mãe ter decidido ir vender cartazes do 25 de Abril nessa noite no Mercado do Povo,sem soutien.
Lembro-me da euforia do primeiro, 1º de MAIO e de como fomos os dois sozinhos porque a minha mãe queria ver tudo.
Lembro-me das marchas do MFA, da GAIVOTA e da GRÂNDOLA VILA MORENA repetida vezes sem conta.
Lembro-me de ficar emocionado anos mais tarde, no Palácio, e de ter agradecido ao Marechal Costa Gomes, o que fez pela Liberdade.

Lembro-me de me fascinar com a rectidão do Marechal Eanes em casa do Almirante Rocha,
Lembro-me, já assessor de imprensa do Palácio Penafiel, de ter prepararado uma fuga de informação quando o Juiz do Tribunal Plenário que condenou Crisostomo Teixeira, se preparava para concorrer ao Supremo Tribunal de Justiça, o que abortou a tentiva.
Lembro-me do Alentejo todo ao avesso e de tudo se ter transformado..


Hoje sou filho de um país livre
Sou Homosexual, Maçon, Socialista, Marxista e respeito a Liberdade. Esforço-me todos os dias por reconhecer a todos os que me rodeiam estes mesmos direitos: Liberdade, Igualdade, Farternidade.


25 de Abril sempre,
porque ninguém poderá fechar as portas que Abril abriu.

24/04/08

In spirito anima exultat

JLJ
Está na Bhaia. É um prazer falar com ele. Disse-me que o Abramovic tinha 400.000 contos de lucros declarados por mês.
- Será feliz? - perguntei eu. Respondeu calmamente:
- Cada um é feliz ao seu modo. Há gente que se realiza na profissão, outros missionários... enfim. Nem sempre é o dinheiro. Isso é uma miragem capitalista... em que todos, ou quase todos sempre caímos.
A Bahia tem-me ensinado muito e hoje, pela primeira vez em muitos anos, de manhã, agradeci estar vivo e ter uma vida porreira. Um dia chego lá.


Europa
Sempre que me escrevem de Lisboa falam da depressão, recessão, neurose, infelicidade. Penso amiúde o que nos terá feito ficar assim. Acho que nós os europeus banimos o transcendental e a espiritualidade das nossas vidas. A moda fez-nos procurar o budismo e outras orientalidades que se subrepusessem ao catolicismo, mas, na verdade, mesmo que viajemos até aos mosteiros tibetanos, pratiquemos o Reiki, o Yoga, não acreditamos em nada. Isso fez toda a diferença e para mim, faz toda a tristeza. In spirito anima exultat.


Facto/Fado

Este quadro do Malhoa que a Tia Lalinha deixou ao Museu do mesmo nome tem uma fotocópia em plástico aqui no restaurante, emoldurado a preceito.

E o fado português, também numa versão guys.


Paulo Cesto
Nova rubrica (COMER)

Hoje estava com vontade de almoçar em Lisboa e fui à Adega da Tia Matilde, nos textos do Lourenço Viegas,

Restaurante apesar do restaurante
A vida pode ser dividida em refeições. Do jantar ao almoço, do almoço ao jantar. Há uma fase em que o jantar é rei. Jantar fora, ir jantar a casa da Teresa, convidar os Paulos para virem cá jantar. É a idade da estupidez, das desoras, dos jantares mais pelas pessoas ou pela bebida do que pela comida. Quando começa a arder a azia, ou se fecham as malhas da família, passa-se do jantar fora ao almoço. Almoçamos um dia destes, no Chiado ou no Marquês. O almoço, mesmo com colegas, ou entre casais, é o ponto de fuga da família, do trabalho. A comida pode ou não ter centralidade. Depois, há alguns dos chamados escolhidos para acederem ao Olimpo da refeição: o jantar à luz do dia, de preferência terminado ao lusco-fusco. Jantar de dia é viver dentro de um quadro do Hopper. A Adega da Tia Matilde fura um pouco aquela tripartição. Um restaurante que se sobrepõe às refeições. É o reino timelessness. Pessoas que almoçam como jantam e jantam como almoçam. Que se demoram, sem se arrastarem, com um arroz de lampreia e babete. Que bebem uma atrás de outras garrafas de branco e de tinto, sem que o álcool entorpeça a deglutição da caldeirada forte e reconfortante. Casais a almoçarar, partilhando travessas – e que gosto dá vê-los, à espanhola, primeiro um cabritinho, ele serve-a, e depois, para terminar, uns filetes saborosos sem serem fritos demais (hei-de reler aquela crónica do Miguel Esteves Cardoso em que, naquele seu jeito de ser melhor que os outros, disserta sobre o problema da justificação na relação dos portugueses com a comida. Que nunca comem nada por comer. É sempre para começar, acabar, amaciar, preparar o estômago...).Começo pelo cocktail de camarão, retro sixties, uma armadilha em que raramente não caio. O da Tia Matilde lá está, vieille cuisine a boa temperatura (às vezes, noutros lados vem quase gelado e com crosta no molho de tanta espera na arca), fresco, voltar a ser criança e a ir ao restaurante ao Porto com a Tia Micas quando o pedaço de camarão encontra o doce do molho. Na Tia Matilde é também de boa nota o marisco. E como é bom mariscar sem ser numa marisqueira. Na lista vem que o cabrito não é cabrito é cordeiro, acto de verdade inédito. Tantas vezes se esquece, ou se quer esquecer por essas ementas afora, que a cabra dá o cabrito (o cabrão, não), a ovelha dá o carneiro (mais velho) e o cordeiro, anho ou borrego (mais novos).A perdiz bem estufada (não sei se selvagem, se de aquário), um cozido reluzente, batatas sempre boas, em pala as da perdiz, bem assadas as do cabrito (que era cordeiro) e macias as do bacalhau, a murro. Empregados eficientes que não dão muita confiança a estranhos, com aquela brusquidão de quem serve muitos doutores que comem o salário em lampreia e o bebem em vinhos caros. Trazem sobremesas catitas, arroz-doce bem amarelinho (amarelo ficava mal), tarte de maçã em camadas, maçãs bem assadas. Depois é acabar o almoço, descer pela escadinha à garagem, entrar no carro e apostar. Estará de dia ou de noite lá fora? A Adega da Tia Matilde é um restaurante de confiança. Apesar do nome. Apesar do local. Apesar de não ter janelas. Apesar da cabeça de touro cornudo com o cachecol da selecção nacional de futebol. Um bom restaurante. Apesar do restaurante.


Casa do Bento
- Está lá Mãezinha.
- Querido! Não ligaste no Domingo. Fiquei preocupada - anunciou ela.
- A mãe também podia ter ligado, também sabe o número.
- Pois podia, mas tu telefonas sempre. Tenho dormido muito mal de noite...
- Sendo eu a telefonar é mais barato - continuou ele ao telefone.
- Oiço muito mal - retorquiu ela. -Tenho dormido muito mal - afirmou de novo como que à espera da pergunta.
- Porquê? - correspondeu ele.
- Ora, é a velhice, estou para a ficar velha.
- Mas se a mãe dorme a sesta depois de almoço, dorme um pedacinho no sofá em frente ao televisor antes de jantar, e ainda dormita ao serão a ver a novela, chega a cama e não tem sono. Parece-me óbvio.
- Deus te proteja de estares sem dormir de noite. É muito mau para a saúde.
- A mãe dorme. Só não dorme de noite, por isso evite fazê-lo de dia.
-Olha sabes que mais? Os jovens agora não têm paciência para conversar com os mais velhos.